Processo que pode bloquear dor inflamatória é descoberto em estudo na USP

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Foi realizado na USP um estudo cujos resultados podem contribuir para a criação de medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais no combate a dores inflamatórias, segundo publicou em reportagem o jornal Correio Braziliense. A pesquisa, realizada no âmbito do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto (SP), permitiu descobrir que uma proteína, chamada de fractalcina, está envolvida na ativação das dores crônicas de origem inflamatória.

Se os receptores da proteína forem bloqueados, acreditam os pesquisadores, as dores inflamatórias, tais como as que ocorrem na artrite reumatoide, poderão ser controladas. Vale dizer que anteriormente os pesquisadores tinham realizado trabalho similar  em animais, quando observaram que existe um tipo celular, chamado de células satélites, que estabelecem o último contato com os neurônios que transmitem a dor. Além disso, puderam descobrir que tais células são ativadas pela proteína fractalcina, liberada durante o processo de inflamação.

Comentando o tema, a coordenadora da Comissão de Artrite Reumatoide da SBR, a reumatologista Licia Maria Henrique da Mota, de início informa que já existem outros estudos recentes avaliando a participação da fractalcina na percepção da dor inflamatória, inclusive na artrite reumatoide. “Um desses estudos, do grupo do pesquisador Clark, do King”s College London, em Londres, observando modelos murinos (ratos), estudou um anticorpo neutralizante da fractalcina como um possível tratamento da dor em modelos experimentais de artrite reumatoide”, acrescenta Licia.

Explicando as mencionadas células satélites, Licia diz que estão em uma parte do sistema nervoso conhecida como glia ou neuroglia. “As células da glia, além de sustentarem os neurônios, participam da atividade neural, da nutrição dos neurônios e de processos de defesa do tecido nervoso.”, explica, acrescentando que as células satélites são formadas principalmente por oligodendrócitos e constituem uma simbiose com os neurônios, pois existe uma interdependência no metabolismo destas células. “Quando ocorre uma modificação química nos neurônios, ocorre também nas células satélites, que estabelecem o último contato com os neurônios que transmitem a dor”, diz a reumatologista.

Segundo ela, os pesquisadores do trabalho da USP demonstraram que estas células, que estão envoltas no corpo desse neurônio e que não tinham uma função patológica conhecida, são fundamentais para esse processo de dor inflamatória, “o que nos faz supor que elas poderiam ter participação em doenças inflamatórias, como a artrite reumatoide”.

Remédios atuais

Comentando o trecho da reportagem do Correio Braziliense que se refere aos remédios existentes atualmente para combater dores inflamatórias, Licia esclarece que, de fato, podem desencadear diversos efeitos colaterais, sobretudo nos casos de necessidade de uso prolongado: “Anti-inflamatórios, por exemplo, podem desencadear hipertensão, alterações digestivas, como gastrite, úlceras e sangramentos e aumento do risco de infarto, entre outros efeitos adversos”.

Em relação aos estudos sobre o surgimento e desenvolvimento da dor inflamatória , Licia diz que essa é uma área em que as pesquisas têm avançado de forma muito rápida. O  conhecimento existente hoje é muito superior ao que havia há uma década. “No entanto, a dor é um fenômeno extremamente complexo e ainda há muito o que se descobrir, para proporcionar aos pacientes que sofrem de doenças dolorosas crônicas uma melhor qualidade de vida”, salienta.

Quanto aos resultados do estudo da USP, ela considera importantes. E, junto com outros estudos nessa mesma área, abre uma nova perspectiva para o manejo da dor inflamatória. Mas Licia faz uma ressalva: “São estudos ainda incipientes e seus resultados precisam ser confirmados em outros experimentos e em pesquisas envolvendo humanos”.

Jornalista responsável: Maria Teresa Fontes Marques

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