SBR – NOTA TÉCNICA FEBRE AMARELA

0
11843

Comissão de Doenças Endêmicas e Infecciosas               

A Febre Amarela (FA) é uma doença viral, infecciosa, não-contagiosa, endêmica em regiões da África e da América do Sul. É transmitida pela picada de mosquitos transmissores infectados(1).

No Brasil, apresenta ocorrência endêmica, principalmente na região amazônica. Fora desta região, surtos podem ocorrer quando o vírus encontra um bolsão de susceptíveis, como confirmado em Ribeirão Preto2 e no Estado de Minas Gerais.

Geralmente, quem contrai o vírus da FA não chega a apresentar sintomas ou tem apresentação clínica oligosintomática. A doença geralmente possui curta duração (aproximadamente 12 dias). O quadro clínico típico é caracterizado por início súbito de febre alta, calafrios, cansaço, cefaleia, mialgia, náuseas e vômitos por cerca de três dias.

A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar (até dois dias), quando podem ocorrer insuficiências hepática e renal, manifestações hemorrágicas, comprometimento do sensório e evolução para coma e morte. A maioria dos infectados recupera-se bem e adquire imunização permanente.

A medida mais importante para prevenção e controle da febre amarela é a vacinação. Por este motivo, o Ministério da Saúde alerta que toda a população que reside ou que se desloque para regiões silvestres, rurais ou de mata em áreas com recomendação de vacina (ACRV) deve imunizar-se.(Fig.1)

Figura 1.  Área Com Recomendação de Vacina (ACRV)  e em viajantes que se deslocam para essa área, conforme o mapa abaixo:

Fonte: CGDT/DEVIT/SVS/MS

Observação: Devido à natureza dinâmica dos dados epidemiológicos, locais que não figuram no mapa acima como ACRV, estão em alerta e realizando vacinação mais intensiva. Por esse motivo, é necessário examinar a situação epidemiológica atual da região antes da decisão sobre vacinação específica.

A vacina é obtida a partir da cepa atenuada 17D do vírus da febre amarela (3) e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Tem validade de 10 anos e deve ser administrada pelo menos 10 dias antes do deslocamento para áreas de risco. (Tabela 1)

A vacina é CONTRAINDICADA para:

  • Crianças com menos de 6 meses de idade.
  • Pacientes com imunossupressão de qualquer natureza, como:
  •           Pacientes infectados pelo HIV com a contagem de células CD4 <200 células/mm3ou menor de 15% do total de linfócitos, para crianças com menos de 6 anos de idade.
  •           Pacientes em tratamento com drogas imunossupressoras (corticosteroides, quimioterapia, radioterapia, imunomoduladores).
  •           Pacientes submetidos a transplante de órgãos.
  •           Pacientes com imunodeficiência primária.
  •           Pacientes com neoplasia.

Obs: Nos casos de pacientes com imunodeficiência, a administração desta vacina deve ser condicionada a avaliação médica individual de risco-benefício e não deve ser realizada em caso de imunodepressão grave.

  • Indivíduos com história de reação anafilática relacionada a substâncias presentes na vacina (ovo de galinha e seus derivados, gelatina e outros produtos que contêm proteína animal bovina).
  • Pacientes com história pregressa de doenças do timo (miastenia gravis, timoma, casos de ausência de timo ou remoção cirúrgica).

Tabela 1: Orientações para a vacinação contra febre amarela para residentes em área com recomendação da vacina ou viajantes para essa área

Fonte: portalsaude.saude.gov.br

Indicação Esquema
Crianças de 6 meses a 9 meses de idade incompletos A vacina está indicada somente em situações de emergência epidemiológica, vigência de surtos, epidemias ou viagem inadiável para área de risco de contrair a doença.
Crianças de 9 meses até 4 anos 11 meses e 29 dias de idade Administrar 1 dose aos 9  meses de idade e 1  dose de reforço aos 4 anos de idade, com intervalo mínimo de 30 dias entre as doses.
Pessoas a partir de 5 anos de idade,  que receberam uma dose da vacina antes de completar 5 anos de idade Administrar uma única dose de reforço, com intervalo mínimo de 30 dias entre as doses.
Pessoas a partir de 5 anos de idade, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação Administrar a primeira dose da vacina e, 10 anos depois, 1 dose de reforço.
Pessoas a partir dos 5 anos de idade que receberam 2 doses da vacina Considerar vacinado. Não administrar nenhuma dose.
Pessoas com 60 anos e mais, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação  O médico deverá avaliar o benefício e o risco da vacinação, levando em conta o risco da doença e o risco de eventos adversos nessa faixa etária ou decorrentes de comorbidades.
Gestantes, independentemente do estado vacinal A vacinação está contraindicada. Na impossibilidade de adiar a vacinação, como em situações de emergência epidemiológica, vigência de surtos, epidemias ou viagem para área de risco de contrair a doença, o médico deverá avaliar o benefício e o risco da vacinação.
Mulheres que estejam amamentando crianças com até 6 meses de idade, independentemente do estado vacinal A vacinação não está indicada, devendo ser adiada até a criança completar 6 meses de idade. Na impossibilidade de adiar a vacinação, como em situações de emergência epidemiológica, vigência de surtos, epidemias ou viagem para área de risco de contrair a doença, o médico deverá avaliar o benefício e o risco da vacinação. Em caso de mulheres que estejam amamentando e receberam a vacina, o aleitamento materno deve ser suspenso preferencialmente por 28 dias após a vacinação (com um mínimo de 15 dias).
Viajantes Viagens internacionais: seguir as recomendações do Regulamento Sanitário Internacional (RSI).

Viagens para áreas com recomendação de vacina no Brasil: vacinar, pelo menos 10 dias antes da viagem, no caso de primeira vacinação. O prazo de 10 dias não se aplica no caso de revacinação.

 

IMPORTANTE PARA O REUMATOLOGISTA!

A vacina para a FA, por ser composta de vírus vivo atenuado, possui alta imunogenicidade (quase 97%), constituindo CONTRAINDICAÇÃO para a sua utilização em pacientes reumatológicos sob terapia imunossupressora. Entretanto, poderá ser indicada em pacientes residentes em área de risco, avaliando-se caso a caso, conforme a orientação do MS.

Desde 2001 tem sido observado, em  alguns estudos, a visceralização do vírus vacinal, assim como também a ocorrência de complicações fatais (meningoencefalite, hepatite)(4-6). em idosos (> 60 anos), crianças (< 6 anos), portadores de HIV com contagem de leucócitos CD4 <200 cells/mm3,   portadores de doenças autoimunes tal como lúpus eritematoso sistêmico, doença de Addison, doenças da tireoide e doenças gastrointestinais autoimunes, sendo estas complicações observadas após a primeira dose da vacina  em todos os casos(6).

Nos pacientes reumáticos, com a necessidade da aplicação da vacina para FA, recomenda-se o que está estabelecido pelo calendário elaborado pela SBIm/SBR 2014/2015(7). (Quadros 1 e 2)

Quadro 1. Drogas imunossupressoras utilizadas em reumatologia, sua ação  no sistema imunológico e intervalo de descontinuidade para utilização de vacinas vivas atenuadas

 

Quadro 2. Biológicos utilizados em reumatologia e intervalo de descontinuidade para utilização de vacinas vivas atenuadas

DII: Doença Inflamatória Intestinal, AR: Artrite Reumatoide, AP: Artrite Psoriásica, LES: Lupus Eritematoso Sistêmico, AIJ: Artrite Idiopática Juvenil,  CAPS: criopirinopatias

Referências

1) Mota LM1, Oliveira AC, Lima RA, Santos-Neto LL, Tauil PL, Vaccination against yellow fever among patients on immunosuppressors with diagnoses of rheumatic diseases; Rev Soc Bras Med Trop. 2009 Jan-Feb;42(1):23-7

 2) http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/situacao-epidemiologica-dados-febreamarela

 3) https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/manual$cries dez servico_vacinacao_ini.pdf&&)

 4) Martins RM, Leal M.L.F, Homma A Serious adverse events associated with yellow fever vaccine, Hum Vaccin Immunother. 2015 Sep; 11(9): 2183–2187. Published online 2015 Jun 19. doi:10.1080/21645515.2015.1022700PMCID: PMC4635904

 5)  Jean K, Donnelly C.A, Ferguson N.M, Garske T., A Meta-Analysis of Serological Response Associated with Yellow Fever Vaccination, Am J Trop Med Hyg. 2016 Dec 7; 95(6): 1435–1439. doi:  10.4269/ajtmh.16-0401

 6) Seligman SJ, Risk groups for yellow fever vaccine-associated viscerotropic disease (YEL-AVD), Vaccine. 2014 Oct 7;32(44):5769-75. doi: 10.1016/j.vaccine.2014.08.051. Epub 2014 Sep 3.

 7) Guia de Imunização SBIm/SBR –Reumatologia 2014-2015

 

 

Deixe uma resposta